Estalidos na ATM: o que significam e quando avaliar
O estalido ao abrir e fechar a boca é um achado comum. Sozinho, sem dor e sem limitação de movimento, costuma não exigir tratamento. A avaliação passa a ser necessária quando aparecem dor, travamento, mudança no padrão do ruído ou dificuldade para mastigar.
- Dr. Guilherme Lima · CRO-RJ 38327
- Cirurgião Bucomaxilofacial
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- Barra da Tijuca · Rio de Janeiro
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Por que a articulação estala
Entre o côndilo da mandíbula e o osso do crânio existe um disco articular, que deveria acompanhar o movimento. Quando esse disco se desloca e volta à posição durante a abertura, produz o ruído característico.
O estalido, portanto, indica uma alteração de coordenação entre disco e côndilo. Isso não significa, por si só, doença que precise de intervenção.
O que dizem os estudos sobre o estalido
Uma revisão da Faculdade de Odontologia de Bauru (USP) sobre o deslocamento do disco com redução — a causa mais comum do estalido — concluiu que essa condição costuma ser assintomática e, em geral, não precisa de tratamento: as estruturas da ATM se adaptam bem a diferentes posições do disco. Nos estudos de longo prazo, a maioria dos pacientes não evoluiu para dor nem para travamento (Poluha e colaboradores, 2019).
Por isso, o estalido sozinho não é motivo para tratamentos invasivos ou para tentar "recolocar o disco no lugar". O foco é a dor, a função e a evolução ao longo do tempo.
Formato do disco e do côndilo: o que a ressonância mostra
Em uma análise de 190 articulações por ressonância magnética, o deslocamento anterior do disco com redução foi o achado mais frequente. O formato do disco teve relação com o deslocamento, enquanto o formato do côndilo não mostrou essa associação (de Farias e colaboradores, 2015).
Outro estudo, com 120 pacientes, encontrou côndilos menores nas articulações com disco deslocado e formato mais anguloso naquelas em que o disco não retorna à posição (travamento). O deslocamento foi mais comum em mulheres e em pacientes mais jovens (Çamlıdağ e colaboradores, 2022).
Esses achados ajudam a entender por que algumas articulações são mais propensas ao deslocamento, mas não substituem o exame clínico. A ressonância é pedida quando o resultado pode mudar a conduta.
Tipos de ruído e o que sugerem
Ruído único ao abrir, típico de deslocamento de disco com redução.
Ruídos ao abrir e ao fechar, sugerindo que o disco sai e volta em dois momentos.
Som contínuo e arenoso, associado a alterações da superfície articular.
Limitação de abertura sem estalido pode indicar disco que não retorna à posição.
Quando procurar avaliação
- Dor associada ao ruído, ao mastigar ou ao bocejar.
- Travamento, mesmo que passageiro, ao abrir ou fechar a boca.
- Redução da abertura bucal em relação ao habitual.
- Mudança recente no padrão do ruído ou surgimento de crepitação.
- Desvio da mandíbula durante o movimento ou alteração da mordida.
Seu estalido veio acompanhado de dor ou travamento?
Solicitar avaliação pelo WhatsAppComo é a avaliação
- Ausculta e palpação da articulação durante os movimentos mandibulares.
- Medida da abertura máxima e dos movimentos laterais.
- Palpação da musculatura mastigatória, para identificar componente muscular.
- Exame da oclusão e do desgaste dentário.
- Ressonância magnética ou tomografia apenas quando o resultado altera a conduta.
Condução dos casos
Estalido isolado costuma ser acompanhado com orientações simples: evitar abertura ampla forçada, moderar alimentos duros e cuidar de fatores de sobrecarga como o apertamento.
Quando há dor ou limitação, o tratamento conservador é a primeira linha, com fisioterapia, orientação e placa quando indicada. Procedimentos articulares, como a artrocentese, entram na discussão em casos selecionados, após diagnóstico e falha do tratamento inicial.
Quando há dor: o que as evidências dizem sobre os tratamentos
Uma revisão sistemática de 2025 comparou a placa oclusal com outros tratamentos no deslocamento do disco. Quando o estalido vem acompanhado de dor (deslocamento com redução), tanto a placa estabilizadora quanto a infiltração de ácido hialurônico trouxeram benefício. Já quando o disco não retorna à posição e há limitação de abertura, a artrocentese teve melhor desempenho do que a placa (Neeli e colaboradores, 2025).
Sobre o ácido hialurônico, uma revisão da Universidade de Pádua observou redução da dor em todos os estudos analisados, com resultados semelhantes aos obtidos com corticoide ou placa, mas pediu estudos de melhor qualidade (Manfredini e colaboradores, 2010). Uma revisão mais recente sugere que a combinação de ácido hialurônico com plasma rico em plaquetas pode melhorar a abertura e a dor em parte dos pacientes que não responderam a cada um isoladamente (Chęciński e colaboradores, 2024).
Para a dor crônica (mais de 3 meses), a diretriz internacional publicada no BMJ dá prioridade a educação, exercícios mandibulares supervisionados, terapia manual, mobilização e terapia cognitivo-comportamental. Placas reversíveis, artrocentese e infiltrações receberam recomendação condicional contrária como primeira escolha nesse cenário, e placas que alteram a mordida de forma irreversível são fortemente desaconselhadas (Busse e colaboradores, 2023).
Na prática, isso reforça uma sequência: primeiro orientação e fisioterapia; placa ou procedimentos articulares em casos selecionados, conforme o diagnóstico e a resposta ao tratamento inicial. Estalido sem dor continua não sendo motivo para tratamento.

Referências científicas
- Poluha RL, De la Torre Canales G, Costa YM, Grossmann E, Bonjardim LR, Conti PCR. Temporomandibular joint disc displacement with reduction: a review of mechanisms and clinical presentation. J Appl Oral Sci. 2019;27:e20180433.
- de Farias JFG, Melo SLS, Bento PM, Oliveira LSAF, Campos PSF, de Melo DP. Correlation between temporomandibular joint morphology and disc displacement by MRI. Dentomaxillofac Radiol. 2015;44:20150023.
- Çamlıdağ İ, Tanrıvermiş Sayıt A, Elmalı M. Is condyle morphology a factor for anterior temporomandibular disc displacement? Turk J Med Sci. 2022;52(5):1609–1615.
- Neeli A, Pandey K, Tole N, Shettar V. Comparison of occlusal splint with other treatment modalities in management of internal derangement of temporomandibular joint: a systematic review. Oral Maxillofac Surg. 2025;29(1):179.
- Busse JW, Casassus R, Carrasco-Labra A, et al. Management of chronic pain associated with temporomandibular disorders: a clinical practice guideline. BMJ. 2023;383:e076227.
- Chęciński M, Lubecka K, Bliźniak F, Chlubek D, Sikora M. Hyaluronic acid/platelet-rich plasma mixture improves temporomandibular joint biomechanics: a systematic review. Int J Mol Sci. 2024;25(17):9401.
- Manfredini D, Piccotti F, Guarda-Nardini L. Hyaluronic acid in the treatment of TMJ disorders: a systematic review of the literature. Cranio. 2010;28(3):166–176.
Perguntas frequentes
Estalido na mandíbula é sempre um problema?
O que causa o estalido?
Estalido pode virar travamento?
Qual a diferença entre estalido e crepitação?
Preciso de ressonância magnética?
Existe tratamento para eliminar o estalido?
Estalido na ATM é frequente e, sem dor ou limitação, costuma não exigir tratamento. Dor, travamento ou mudança do padrão do ruído indicam avaliação. O diagnóstico é feito presencialmente pelo Dr. Guilherme Lima, cirurgião bucomaxilofacial na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.