Dr. Guilherme Lima — Cirurgião bucomaxilofacial, CRO-RJ 38327. Formação em cirurgia ortognática na SO'S Klinika, com Simonas Grybauskas (Lituânia); Hospital Universitário de La Princesa (Madrid, Espanha).
O que é parestesia após cirurgia ortognática?
Parestesia é uma alteração da sensibilidade. O paciente costuma descrever como dormência, formigamento, sensação de anestesia que não passa, pele “grossa” ou pequenos choques ao tocar determinada região. Não é paralisia: a força dos músculos da face e o movimento dos lábios continuam funcionando, porque os nervos envolvidos na cirurgia ortognática são sensitivos, e não motores.
Na cirurgia da mandíbula, o nervo mais relacionado a essa queixa é o nervo alveolar inferior, que percorre o interior do osso e emerge próximo ao queixo, levando sensibilidade ao lábio inferior, ao mento e à gengiva da região. Na cirurgia da maxila, a alteração costuma envolver o nervo infraorbitário e ramos menores, com dormência no lábio superior, na asa do nariz, na gengiva superior ou no palato.
Como o nervo passa muito próximo às áreas de osteotomia, algum grau de manipulação é esperado mesmo em cirurgias conduzidas com técnica cuidadosa. Por isso a alteração de sensibilidade é considerada uma consequência frequente do procedimento, e não necessariamente um sinal de que algo deu errado.
Por que a parestesia acontece?
O nervo pode ser afetado por estiramento, compressão, edema ao redor dos tecidos, calor gerado pelo instrumental ou pela própria mobilização dos segmentos ósseos para a nova posição. Nessas situações, a estrutura do nervo permanece íntegra e a condução do estímulo volta gradualmente, à medida que a inflamação cede e as fibras se reorganizam.
Situações menos comuns envolvem lesão mais direta das fibras nervosas, com recuperação mais lenta e, em uma parcela dos casos, sensibilidade que não retorna totalmente ao padrão anterior. A chance de isso ocorrer varia conforme o tipo de movimento planejado, a anatomia individual do trajeto do nervo, a idade do paciente e a complexidade do caso.
Quanto tempo dura a parestesia?
Não existe um prazo único. O padrão mais observado é de melhora progressiva ao longo das primeiras semanas e dos primeiros meses, com recuperação mais evidente nos três a seis meses iniciais e evolução mais lenta depois disso. Em parte dos pacientes, pequenas áreas de sensibilidade diferente permanecem por mais tempo.
A recuperação costuma ser desigual: a sensibilidade retorna “em manchas”, e regiões vizinhas podem estar em estágios diferentes. Formigamento, coceira e sensação de agulhadas leves com frequência aparecem justamente quando a condução nervosa está sendo retomada.
Como a evolução é individual, não é possível prometer prazo de retorno completo. O acompanhamento serve exatamente para registrar a progressão ao longo do tempo e identificar quando ela foge do esperado.
Sinais que merecem conversa com a equipe
Vale relatar ao cirurgião quando a dormência piora depois de um período de melhora, quando aparece dor em queimação persistente na área alterada, quando o toque leve provoca desconforto desproporcional ou quando não há qualquer mudança perceptível depois de vários meses.
Nenhum desses sinais define, isoladamente, um diagnóstico. Eles indicam a necessidade de reavaliação presencial, com exame da sensibilidade por regiões e, quando pertinente, exames complementares.
Como a parestesia pode ser acompanhada e tratada?
A conduta depende do quadro clínico e do tempo de evolução. O acompanhamento periódico com mapeamento das áreas afetadas é a base, porque permite comparar objetivamente a evolução entre as consultas.
Entre os recursos que podem ser considerados em casos selecionados estão medidas de controle do edema no pós-operatório inicial, medicações prescritas conforme avaliação médica, fotobiomodulação com laser de baixa potência, fisioterapia orofacial e estímulos sensoriais orientados. Em quadros específicos, com sinais sugestivos de lesão mais importante, pode haver indicação de avaliação especializada adicional.
Nenhum desses recursos garante o retorno completo da sensibilidade. A escolha é individual, discutida com o paciente, e depende do exame presencial.
Ver o passo a passo do pós-operatório da ortognáticaParestesia pode ser evitada?
Não existe forma de eliminar completamente essa possibilidade, porque o trajeto do nervo é vizinho às áreas operadas. O que a prática atual busca é reduzir o risco: planejamento virtual em três dimensões, análise do trajeto do nervo em tomografia, técnica cirúrgica cuidadosa na separação dos segmentos ósseos e manejo adequado dos tecidos.
Conversar sobre esse tema antes da cirurgia faz parte do consentimento informado. Saber que a dormência é esperada nas primeiras semanas costuma reduzir bastante a ansiedade no pós-operatório.
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