Dr. Guilherme Lima — Cirurgião bucomaxilofacial, CRO-RJ 38327. Formação em cirurgia ortognática na SO'S Klinika, com Simonas Grybauskas (Lituânia); Hospital Universitário de La Princesa (Madrid, Espanha).
Resposta curta: o que é cirurgia ortognática minimamente invasiva?
É a cirurgia ortognática feita com acessos menores e menor descolamento dos tecidos que recobrem o osso, preservando ao máximo a vascularização, os nervos e os músculos ao redor das áreas operadas. O objetivo é o mesmo da técnica convencional — reposicionar maxila, mandíbula e/ou mento para corrigir mordida, função e proporção facial —, mas com menos agressão aos tecidos.
O termo é muitas vezes usado como chamariz publicitário. Na literatura, ele designa uma filosofia cirúrgica sistematizada, descrita em detalhe pelo Prof. Gwen Swennen no tratado “Minimally Invasive (MI) Orthognathic Surgery: A Systematic Step-by-Step Approach” (Springer, 2023, disponível em acesso aberto no NCBI Bookshelf). Continua sendo uma cirurgia de grande porte, hospitalar e sob anestesia geral.
Os princípios da técnica minimamente invasiva
Preservação vascular: o osso da face é nutrido pelo periósteo e pelas inserções musculares. Quanto menos esses tecidos são descolados, melhor tende a ser a irrigação dos segmentos ósseos reposicionados e menor a reação inflamatória local.
Acessos reduzidos e instrumental dedicado: afastadores estreitos e instrumentos desenhados para trabalhar por janelas menores permitem proteger feixes vasculonervosos, como o nervo mentual e o pedículo palatino, durante as osteotomias.
Padronização em etapas: o tratado de Swennen descreve cada osteotomia em uma sequência fixa de passos — por exemplo, a mentoplastia óssea minimamente invasiva (capítulo 3) e a expansão maxilar cirurgicamente assistida (capítulo 6), ambas em 10 etapas. A padronização busca reprodutibilidade, precisão e menor tempo cirúrgico.
Ferramentas de apoio: planejamento virtual em 3D com guias cirúrgicos, cortes ósseos com piezocirurgia (vibração ultrassônica seletiva para osso) quando indicada e fixação interna estável com miniplacas e parafusos de titânio. Uma revisão sistemática de 44 estudos agrupou as técnicas minimamente invasivas em incisões reduzidas, procedimentos assistidos por endoscopia e uso de piezocirurgia, e concluiu que a evidência sugere menor morbidade, embora ainda faltem estudos de maior nível (AlAsseri & Swennen, International Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, 2018).
Entender o planejamento virtual 3DO que é o protocolo fast-track (recuperação acelerada)?
Fast-track — ou ERAS, do inglês enhanced recovery after surgery — é um conjunto de cuidados antes, durante e depois da cirurgia, planejado por cirurgião e anestesiologista, para reduzir o estresse do organismo e favorecer uma recuperação mais confortável. O conceito nasceu na cirurgia geral e foi adaptado à ortognática em uma revisão baseada em evidências do European Face Centre, em Bruxelas (Otero, Detriche & Mommaerts, Annals of Maxillofacial Surgery, 2017).
Antes da cirurgia: orientação detalhada ao paciente sobre cada fase, interrupção do tabagismo o quanto antes e revisão das medicações de uso contínuo junto à equipe de anestesia. O jejum segue as diretrizes atuais, que em adultos costumam permitir líquidos claros até algumas horas antes, conforme orientação do anestesiologista — o jejum prolongado, por si só, não traz benefício.
Durante a cirurgia: anestesia individualizada, com monitorização da profundidade anestésica, anestesia local complementar, medidas para reduzir sangramento e prevenção de náuseas. A fixação interna estável dispensa o bloqueio rígido da boca com fios na maioria dos casos.
Depois da cirurgia: analgesia multimodal que procura reduzir o uso de opioides (e, com isso, náuseas e sonolência), cabeceira elevada, compressas frias nas primeiras horas, levantar e caminhar precocemente com auxílio, e retomada de líquidos assim que liberada. As medicações e doses são sempre definidas individualmente pela equipe; este texto não substitui a prescrição.
Técnica e protocolo: por que os dois juntos
A técnica minimamente invasiva atua no que acontece no campo operatório: menos descolamento, menos trauma aos tecidos. O protocolo fast-track atua no que acontece com o organismo como um todo: ansiedade, dor, náusea, hidratação, mobilização. Um não substitui o outro.
Na prática, o que o paciente percebe como “recuperação melhor” costuma resultar dessa soma — e não de um aparelho ou de uma incisão específica. Por isso, ao comparar propostas de tratamento, vale perguntar não só qual técnica será usada, mas também como serão conduzidos o preparo, a anestesia e o pós-operatório.
Conhecer a cirurgia ortognáticaO que a cirurgia minimamente invasiva NÃO significa
Não é procedimento de consultório: a cirurgia ortognática continua sendo realizada em centro cirúrgico hospitalar, sob anestesia geral e com equipe de anestesiologia.
Não é recuperação sem inchaço ou sem desconforto: o edema e algum grau de dor são esperados. O que se busca é controlá-los melhor, e a intensidade varia de pessoa para pessoa e conforme o tipo de cirurgia.
Não acelera a biologia do osso: a consolidação óssea segue o tempo fisiológico de cada paciente. A liberação para mastigação de alimentos firmes e para esforço físico depende da avaliação da equipe, não da técnica usada.
Não elimina o risco de alteração de sensibilidade: a dormência temporária de lábio, queixo ou bochecha continua possível, porque os nervos sensitivos passam próximos às áreas operadas.
Não dispensa a ortodontia: na maioria dos casos, o preparo e a finalização ortodôntica continuam fazendo parte do tratamento.
Não é indicada para todos: movimentos ósseos amplos, assimetrias complexas, reoperações ou anatomias específicas podem exigir acessos maiores por segurança.
Quais benefícios são descritos na literatura?
Os estudos sobre abordagens minimamente invasivas e protocolos de recuperação acelerada relatam, de forma geral, tendência a menor morbidade, menos náuseas no pós-operatório, menor necessidade de opioides e alta hospitalar mais precoce em casos sem intercorrências. A qualidade da evidência específica para cirurgia ortognática ainda é limitada, e os próprios autores das revisões recomendam estudos prospectivos.
O tempo de internação depende do procedimento e da evolução pós-operatória. O retorno a atividades leves acontece após algumas semanas, conforme a evolução e a liberação da equipe — etapa diferente da consolidação óssea e da liberação para esforço físico.
Ver os cuidados do pós-operatórioQuem pode se beneficiar e como é a avaliação
A indicação considera o tipo e a magnitude da discrepância esquelética (Classe II, Classe III, mordida aberta, assimetria), se a cirurgia envolve uma ou as duas arcadas, a saúde geral, o hábito de fumar, o uso de medicações e as expectativas do paciente. O planejamento virtual em 3D, feito a partir de tomografia e escaneamento digital, ajuda a definir quanto cada segmento ósseo precisa se mover e qual acesso é o mais seguro para o caso.
Na avaliação na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, essas informações são discutidas de forma individual, incluindo riscos, alternativas e o papel da ortodontia. A cobertura por plano de saúde segue as mesmas regras da cirurgia ortognática convencional, mediante indicação funcional documentada.
Responder o questionário de avaliação de ortognáticaReferências
Swennen GRJ. Minimally Invasive (MI) Orthognathic Surgery: A Systematic Step-by-Step Approach. Springer, 2023. NCBI Bookshelf NBK600297 (capítulos 3 — MI Chin Osteotomy, NBK600305 — e 6 — MI Maxillary Expansion, NBK600302).
AlAsseri N, Swennen G. Minimally invasive orthognathic surgery: a systematic review. International Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, 2018.
Otero JJ, Detriche O, Mommaerts MY. Fast-track orthognathic surgery: an evidence-based review. Annals of Maxillofacial Surgery, 2017;7:166-75. doi:10.4103/ams.ams_106_17.
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