Respiração, Sono e Cirurgia Ortognática

Atresia Maxilar, DOME, MARPE e Apneia do Sono

A deficiência transversal da maxila está diretamente relacionada à restrição do assoalho nasal e ao aumento da resistência aérea. Conheça as evidências científicas sobre MARPE, DOME e o Avanço Maxilomandibular (MMA) no manejo dos distúrbios respiratórios do sono.

  • Dr. Guilherme Lima · CRO-RJ 38327
  • Cirurgião Bucomaxilofacial
  • Planejamento virtual 3D
  • Barra da Tijuca · Rio de Janeiro
  • Mais de 800 opiniões no Doctoralia

Deficiência Transversal da Maxila e Impacto Respiratório

A atresia maxilar (estreitamento do maxilar superior) manifesta-se clinicamente através de mordida cruzada posterior, apinhamento dentário severo e o característico palato ogival (profundo e estreito). Embriologicamente e anatomicamente, o teto do palato duro constitui diretamente o assoalho da cavidade nasal.

Quando a maxila apresenta deficiência transversal, o corredor nasal encontra-se estreito, elevando a resistência nasal e forçando o paciente à respiração bucal crônica. Em pacientes adultos, esse componente anatômico restritivo frequentemente agrava quadros de ronco e Apneia Obstrutiva do Sono (AOS).

  • Redução das dimensões transversais do assoalho nasal
  • Aumento da resistência das vias aéreas superiores
  • Associação frequente com ronco primário e apneia obstrutiva do sono
  • Necessidade de abordagem esquelética em pacientes adultos (pós-crescimento)

Como funciona a expansão maxilar em adultos?

Em pacientes adultos, a sutura palatina mediana encontra-se ossificada, tornando ineficazes os aparelhos dentossuportados tradicionais. A expansão maxilar esquelética moderna utiliza ancoragem esquelética em mini-implantes (MARPE) associada ou não a osteotomias minimamente invasivas.

Etapa 1: Instalação

Planejamento digital 3D e instalação do expansor personalizado com ancoragem em mini-implantes palatinos, evitando inclinação dentária indesejada.

Etapa 2: Osteotomias

Realização de cortes ósseos maxilares individualizados e minimamente invasivos (quando indicados pelo grau de rigidez esquelética).

Etapa 3: Ativação

Ativação gradual e controlada do parafuso expansor pelo paciente, promovendo abertura progressiva e segura da sutura e diastema central.

Etapa 4: Consolidação

Período de contenção para mineralização do novo osso formado, seguido pela finalização ortodôntica com alinhadores ou aparelho fixo.

Caso clínico demonstrando fases de expansão palatina com MARPE, abertura de diastema e resultado oclusal
Caso clínico demonstrando as fases de expansão palatina com aparelho esquelético, abertura de diastema e resultado oclusal após tratamento ortodôntico. A resposta é individualizada.

DOME: Expansão do Palato e Relação com a Respiração Nasal

O protocolo DOME (Distraction Osteogenesis Maxillary Expansion) combina a expansão rápida da maxila assistida por mini-implantes com osteotomias cirúrgicas para maximizar o ganho de volume na cavidade nasal. O objetivo principal é a expansão da base esquelética nasal, reduzindo a resistência inspiratória e facilitando a respiração nasal.

Embora proporcione melhora significativa no fluxo aéreo nasal, a expansão maxilar isolada visa otimizar a via aérea superior e deve ser interpretada com critério clínico rigoroso, não equivalendo automaticamente à cura da apneia do sono em todos os perfis de pacientes.

Representação esquemática dos objetivos anatômicos da expansão osteogênica maxilar (DOME)
Representação esquemática dos objetivos anatômicos da expansão osteogênica maxilar (DOME). A ampliação das dimensões nasais não equivale automaticamente à cura da apneia do sono.

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O que demonstraram os estudos sobre DOME?

Estudos clínicos retrospectivos de referência na literatura internacional (como Yoon et al., 2019, publicado no Sleep Medicine, PMID: 31606311) avaliaram a eficácia do DOME em pacientes adultos com apneia obstrutiva do sono e atresia maxilar.

Os resultados documentaram reduções expressivas no Índice de Apneia e Hipopneia (IAH) e melhora nos parâmetros de oximetria na amostra selecionada. No entanto, a comunidade científica reforça que o sucesso terapêutico depende estritamente da correlação clínica individual, polissonografia prévia e exclusão de colapsos severos em múltiplos níveis da faringe.

DOME versus Avanço Maxilomandibular (MMA)

É fundamental diferenciar as abordagens cirúrgicas no tratamento da apneia do sono. Enquanto o DOME atua no plano transversal (largura da maxila e base nasal), o Avanço Maxilomandibular (MMA) reposiciona tridimensionalmente a maxila e a mandíbula para frente.

O MMA é considerado o procedimento cirúrgico ortognático mais potente para o tratamento da apneia obstrutiva do sono grave, pois promove a tração dos músculos genioglosso e tensor do véu palatino, expandindo o espaço retroglosso e retrofaríngeo.

Estudo de Liu SY et al. (2016) demonstrando estabilização velofaríngea e redução de resistência inspiratória via DISE e CFD
Liu SY, et al. Efficacy of Maxillomandibular Advancement Examined with Drug-Induced Sleep Endoscopy and Computational Fluid Dynamics Airflow Modeling. Otolaryngol Head Neck Surg. 2016;154(1):189-195. Ilustração da estabilização velofaríngea e redução da resistência inspiratória.

Mecanismo Esquelético de Ativação (Animação Didática)

A animação abaixo ilustra o mecanismo biomecânico de expansão esquelética do MARPE/DOME, demonstrando a distribuição das forças ortopédicas sobre o osso palatino e a abertura gradual da sutura sem sobrecarga dentária prejudicial.

Animação do mecanismo esquelético MARPE
Animação esquemática do mecanismo esquelético de ativação do expansor maxilar.

Perguntas frequentes

O que é a atresia maxilar e como ela afeta a respiração?
A atresia maxilar caracteriza-se pelo estreitamento transversal da arcada superior e do palato (frequentemente associado ao palato ogival). Esse estreitamento reduz as dimensões do assoalho nasal e da cavidade nasal, aumentando a resistência à passagem do ar e predispondo o paciente a quadros de respiração bucal e distúrbios respiratórios do sono.
Qual a diferença entre MARPE e DOME?
O MARPE (Maxillary Skeletal Expander) é o aparelho ortopédico/cirúrgico fixado por mini-implantes na maxila para abertura da sutura palatina mediana em adultos. O DOME (Distraction Osteogenesis Maxillary Expansion) refere-se ao protocolo clínico estruturado que combina MARPE com corticotomias/osteotomias maxilares minimamente invasivas quando necessário, visando expandir a base esquelética nasal e diminuir a resistência aérea.
A expansão maxilar cura a apneia do sono?
Não necessariamente. Estudos científicos (como Yoon et al., 2019) demonstram reduções significativas no Índice de Apneia e Hipopneia (IAH) em pacientes selecionados com atresia transversal, porém a expansão isolada melhora a via aérea nasal e maxilar, não constituindo garantia de cura universal da apneia obstrutiva do sono, que pode exigir abordagens combinadas.
Quando o Avanço Maxilomandibular (MMA) é indicado em vez do DOME?
Enquanto o DOME atua primariamente na dimensão transversal e no assoalho nasal, o MMA (Avanço Maxilomandibular) reposiciona cirurgicamente a maxila e a mandíbula para frente, promovendo a ampliação volumétrica da faringe e a estabilização das paredes laterais e do palato mole (velum), sendo o procedimento ortognático mais eficaz para apneias moderadas a graves.
Como é feita a avaliação para definir o tratamento ideal?
O planejamento envolve polissonografia recente, tomografia computadorizada de feixe cônico das vias aéreas superiores, exame clínico ortodôntico-cirúrgico e, quando indicado, endoscopia do sono (DISE - Drug-Induced Sleep Endoscopy) para mapear os locais exatos de colapso da via aérea.

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Em resumo

O tratamento da apneia obstrutiva do sono de origem esquelética exige diagnóstico rigoroso por polissonografia, tomografia 3D e avaliação otorrinolaringológica integrada. Cada plano cirúrgico é individualizado visando a melhora funcional e respiratória.

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Conteúdo escrito e revisado por Dr. Guilherme Lima, cirurgião bucomaxilofacial (CRO-RJ 38327), Barra da Tijuca — Rio de Janeiro.

Este material tem caráter informativo e educativo e não substitui a consulta presencial. Diagnóstico, indicação e conduta dependem de avaliação clínica individualizada; respostas ao tratamento variam de pessoa para pessoa.